Mulheres produzem artesanato com fibras originadas na Wetland em Araruama

Regina Riglei, Lúcia Helena e Sandra Regina com um dos teares da Nós da Trama, que funciona numa linda casa em Araruama. (Fotos: Edimilson Soares)

Regina Riglei, Lúcia Helena e Sandra Regina com um dos teares da Nós da Trama, que funciona numa linda casa em Araruama. (Fotos: Edimilson Soares)

O núcleo de tecelagem artesanal de Araruama, Nós da Trama, está criando peças com as fibras oriundas da Wetland, a Estação de Tratamento de Esgoto Ponte dos Leites, da Concessionária Águas de Juturnaíba. Na Wetland, plantas aquáticas fazem o papel de filtros naturais, num sistema de tratamento terciário do esgoto, absolutamente natural, que absorvem resíduos e limpam a água. Papiros e sombrinhas são tipos de plantas que vêm sendo reutilizadas pelas artesãs da Nós da Trama, uma cooperativa de tecelãs, famosa pela qualidade de seus tecidos e produtos, vencedora do Prêmio Top 100, do Sebrae, e imortalizada em figurinos de novelas e seriados de TV.

Nós da Trama

Nós da Trama

A Nós da Trama começou a se formar em 1990, a partir de um grupo de mulheres que decidiu trabalhar com tecelagem manual, visando a geração de renda e a inserção no mercado de trabalho. Em 1996, o trabalho já envolvia quase 20 profissionais e, no ano seguinte, foi constituída a cooperativa, tendo como missão capacitar, sensibilizar e instruir as artesãs, através de uma abordagem continuada, segundo os princípios do associativismo. Desde o início, a Nós da Trama se voltou para a questão sócio-ambiental e adotou como conceito para a produção a criação e o desenvolvimento de tramas, misturando fios e fibras naturais, algodão, juta, rami, taboa e sisal, criando texturas diferenciadas e exclusivas.

Com um design original, misturando linhas à taboa, fibra de bananeira, piaçava e outros materiais, a Nós da Trama conseguiu uma excelente reputação e construiu uma rede de relacionamentos comerciais. Mas a falta de capital de giro representou dificuldades para as artesãs, apesar da credibilidade conquistada. Através de oficinas de capacitação, a cooperativa participou na formação de grupos de mulheres, em parceria com o setor público e programas de responsabilidade social da iniciativa privada, entre eles, trabalhos desenvolvidos nos municípios Rio Bonito, Silva Jardim e Iguaba Grande, além do grupo de mulheres da comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro.

Consagrada no mercado, a Nós da Trama participou de coleções de grandes marcas e se projetou em feiras no Brasil e na Alemanha, participou de programas e projetos do Senai, Sebrae, universidades, Academia Brasileira de Letras, Instituto Zuzu Angel, culminando no Fashion Rio e numa parceria com a Firjan, durante vários anos. Das pistas de moda para a pista do samba foi mais um passo, consolidado no desfile das escolas de samba União da Ilha e Mocidade Independente.

Mas foi nas telinhas da TV, através das novelas e minisséries da Rede Globo, que a Nós da Trama se superou. A beleza dos figurinos elaborados com os tecidos da Nós da Trama, que também começaram a atuar nos cenários, principalmente em reconstituições de época, chamaram a atenção do grande público, da crítica especializada e encantou o público. Nesta emissora, a Nós da Trama participou dos seguintes seriados e novelas: A Muralha, Os Maias, A Padroeira, O Clone, O Quinto dos Infernos, Cabloca, JK, Sinhá Moça e outras. Na TV Record, a cooperativa vem trabalhando na série bíblica: A história de Ester, Sanção e Dalila e o Rei David.

Hoje, a Nós da Trama mantém uma parceria com a Concessionária Águas de Juturnaíba que fornece os papiros, resíduos das plantas aquáticas da Wetland, que viram tecidos, bolsas, sacolas, pastas, panos de mesa, carteiras, e outros produtos que encantam pela forma, trama e colorido.

“A ideia é transformar o papiro na nossa grande vedete. É uma fibra maravilhosa, que não tem serrinha, não tem fiapinho e não dá alergia. A fibra da banana tem que ter um tratamento para fungo e mofo; o papiro não”, explica Regina Riglei, uma professora de matemática, que nos anos 70 foi morar em Araruama, para viver perto da natureza. Quando comprou seu primeiro tear, não imaginou chegar aonde chegou. Idealista, consegue manter a cooperativa numa casa, sem nenhum apoio oficial. Somente o desejo de trabalhar, mantendo essa chama viva, junto com outras mulheres tão talentosas como ela, tecendo uma trama que se mantém no tempo, apesar das adversidades, renascendo a cada dia.

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