Rio Una: uma alternativa para o lançamento dos efluentes tratados fora da Lagoa de Araruama

Estudos comprovam que verter os efluentes tratados da ETE Jardim Esperança para o Rio Una, que desemboca no mar, beneficia a Lagoa de Araruama (Foto: Flávio Antônio)

Estudos comprovam que verter os efluentes tratados da ETE Jardim Esperança para o Rio Una, que desemboca no mar, beneficia a Lagoa de Araruama (Foto: Flávio Antônio)

O Rio Una ganhou destaque no noticiário, desde a entrada em pré-operação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Jardim Esperança, em Cabo Frio, cujos efluentes não serão descartados na Lagoa de Araruama, evitando a entrada de água doce no maior corpo hídrico hipersalino do mundo. Com esta primeira estação lançando seus efluentes para o Córrego da Malhada, contribuinte do Rio Una, começa a ser colocado em prática o projeto de transposição dos efluentes das ETEs que vertem água doce para a Lagoa de Araruama, como as ETEs de Iguaba Grande, de São Pedro da Aldeia e de Cabo Frio (Tamoios), alterando o ecossistema.

Preconizada pioneiramente pelo Consórcio Intermunicipal Lagos São João (CILSJ), a transposição demandou estudos que indicaram o Rio Una como alternativa para o descarte dos efluentes oriundos das ETEs da região. Para chegar a esta conclusão, foram feitas várias projeções, empreendidas pelo professor Marcos Von Sperling, do departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais. Junto com técnicos da Fundação Christiano Ottoni, o professor Sperling pesquisou o Rio Una, em fevereiro de 2008, resultando no trabalho “Modelagem da Qualidade das Águas da Bacia do Rio Una após Reversão dos Efluentes Tratados de Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia e Cabo Frio”.

Em seu relatório, o professor apresenta análises da qualidade das águas do Rio Una, simulando futuras condições a partir da recepção dos efluentes tratados das ETEs que hoje têm como destino final a Lagoa de Araruama. O estudo projeta a reversão dos esgotos, por meio de bombeamento, para a Bacia do Una, que desemboca no Oceano Atlântico, sem interferir na Lagoa de Araruama.

A partir de dados de campo, monitoramento da qualidade da água e simulações da água futura, foi usado um modelo matemático, adotado na universidade mineira, baseado em modelo da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, utilizado mundialmente. Foram analisados o Rio Una e os corpos receptores imediatos dos possíveis lançamentos: o Rio Arrozal-Papicu, que poderá vir a ser o futuro receptor dos efluentes da ETE Iguaba Grande, o Rio Frecheiras, que pode receber os efluentes da ETE São Pedro da Aldeia e o Córrego da Malhada – atual receptor dos efluentes tratados da ETE Jardim Esperança e que também deverá receber os efluentes da ETE Cabo Frio/Tamoios.

Outro estudo promovido pelo Consórcio foi a “Batimetria do Rio Una”, realizada em 2009, pelo biólogo Flávio Antônio Gomes e pelo matemático Roberto Negrão. Devido à densidade da vegetação e ao assoreamento, em certos trechos o Rio Una apresenta características de brejos, com grande presença de “macrófitas” (plantas aquáticas) que são fontes de oxigênio, podendo reter nutrientes e poluentes. Ambos os estudos foram um desdobramento de outro importante documento, produzido pela Geoport Consultoria e Estudos Ambientais, em 2004, que foi a base para a tomada de decisão do CILSJ, favorável à transposição dos efluentes das ETEs para o Rio Una.

O “Projeto Estudo de Alternativas para o Lançamento dos Efluentes das Estações de Tratamento de Esgoto dos Municípios de Araruama, Armação dos Búzios, Cabo Frio, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia”, elaborado pela Geoport, visava a identificação dos locais próprios para o lançamento dos efluentes das ETEs. Na época, às vésperas da implantação dos sistemas de tratamento de esgoto na região, incluindo estações de tratamento, elevatórias, redes de coleta, distribuição e esgotamento sanitário, a Lagoa de Araruama estava prestes a receber toda a carga dos efluentes tratados; daí a preocupação do Consórcio. A questão foi intensamente debatida no Conselho de Associados do CILSJ, assim como a necessidade do reuso dos efluentes tratados e seu aproveitamento em irrigação, indústrias, lavagem de áreas urbanas e outras atividades, desde que não comprometessem a saúde humana e não colocassem em risco o meio ambiente.

Com cerca de 30 km de extensão, o Rio Una apresenta em seu percurso trechos retificados por obra do Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS). Em 1934, um relatório da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense descrevia o Una como um rio que atravessa os brejais de Itaí, Pau Rachado, Tritimurunum, Angelim e Campos Novos. “O Una, lançando-se diretamente no Oceano, cerca de seis milhas ao sul da barra do São João, tem pequena profundidade na foz, que é desabrigada. Só em mares de sizígia é possível a entrada de canoas que navegam até Campos Novos”, dizia o relatório.

Na década de 40, segundo alguns autores, as planícies do Rio Una ainda estavam alagadas; os pântanos iam além de 20 km da costa. Tanto o Una quanto seus tributários possuem leitos aparentes apenas nos trechos em que cruzam as zonas de colinas; ao entrarem na zona de baixada lançam suas águas num imenso brejo. Somente junto à costa o canal do Una volta a ser aparente. Essas características, segundo estudos realizados, favorecem a transposição que agora se concretiza com a ETE Jardim Esperança, desejo de muitos ambientalistas, desde a criação em 1999 do Consórcio Intermunicipal Lagos São João.

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