Recomeça o desassoreamento do Canal do Itajuru, ligação entre o mar e a Lagoa de Araruama

No Canal do Itajuru, a draga de corte e sucção alocada junto à Ilha Palmer na entrada da  Enseada das Palmeiras . Serão dragados 150 mil metros cúbicos de areia. Foto: Arnaldo Villa Nova

No Canal do Itajuru, a draga de corte e sucção alocada junto à Ilha Palmer na entrada da Enseada das Palmeiras . Serão dragados 150 mil metros cúbicos de areia. Foto: Arnaldo Villa Nova

Finalmente, depois de muita expectativa, recomeçou o desassoreamento do Canal do Itajuru, em Cabo Frio. A dragagem faz parte do processo de revitalização da Lagoa de Araruama, que teve início há mais de 10 anos e que inclui, entre outras intervenções, as obras de saneamento básico das concessionárias Águas de Juturnaíba e Prolagos nos municípios do entorno da lagoa e na construção de uma nova Ponte do Ambrósio, que ampliou de 30 para 300 metros o vão entre Cabo Frio e São Pedro da Aldeia. Extremamente assoreado, o que impede a renovação das águas, o canal hidráulico está sendo dragado para aumentar a velocidade de troca das águas mar-lagoa, minimizar a possibilidade de mortandade de peixes e preservar a biodiversidade.

O ambientalista Arnaldo Villa Nova, coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento, pioneiro na luta pela preservação da lagoa

O ambientalista Arnaldo Villa Nova, coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento, pioneiro na luta pela preservação da lagoa

Segundo o ambientalista Arnaldo Villa Nova, da ONG Viva Lagoa, um dos pioneiros da luta pela preservação da Lagoa de Araruama, desde fevereiro de 2010 a comunidade estava aguardando a retomada dessa dragagem que teve início só em junho de 2011, graças ao empenho do secretário estadual do ambiente, Carlos Minc, e do subsecretário Luiz Firmino Pereira. O desassoreamento do Canal do Itajuru está sendo feito em dois pontos, simultaneamente. Sob a Ponte Feliciano Sodré, ocorre o derrocamento de dois promontórios, para remover lajes de pedras que impedem o fluxo das águas e a navegação. E dragando o canal hidráulico, no trecho que vai do Baixo Grande até a Enseada das Palmeiras, para remover areia. A remoção desses obstáculos facilitará, em muito, a renovação da Lagoa de Araruama.

Em 1999, quando surgiu o Consórcio Intermunicipal Lagos São João, a partir de uma grande mobilização social, voltada para o meio ambiente, a Lagoa de Araruama caminhava para processo grave de poluição. Em 2000, a lagoa eutrofizou; praticamente sucumbiu! Totalmente poluída, cheirava mal e espantava os moradores e turistas. As praias ficaram cobertas de algas que exalavam um odor nauseante. A balneabilidade era cronicamente comprometida na Praia do Centro, em Araruama, na Praia do Siqueira e na Praia das Palmeiras, em Cabo Frio. Os camarões desapareceram e os poucos pescados eram de coloração verde! A grita dos ambientalistas chegou ao máximo e desembocou na criação do Comitê da Bacia Hidrográfica Lagos São João, que passou a negociar diretamente com as concessionárias responsáveis pelos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, a Prolagos e a Águas de Juturnaíba, a antecipação e o aceleramento do cronograma de obras de captação de esgotos, para salvar a lagoa.

O renascimento da Lagoa de Araruama

As captações de esgotos em “tempo seco”, isto é, numa única rede, junto com a rede de águas pluviais, foi a solução encontrada na época e começou a funcionar, aliviando a lagoa, principalmente em tempos de estiagem (sem chuvas). As Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) passaram a funcionar efetivamente a partir de 2005. Com este sistema de esgotamento sanitário, a lagoa começou a melhorar; as algas que contaminavam as praias desapareceram; o nível de coliformes fecais baixou, deixando as praias balneáveis; o nível de nutrientes diminuiu. E, de junho a dezembro de 2008, a lagoa ficou transparente! Em 2009, a lagoa teve outro momento de recuperação. Os camarões retornaram e a pesca artesanal voltou a ser praticada ativamente.

Chico Pescador, coordenador da Câmara Técnica de Pesca e Aquicultura, acredita na plena recuperação da Lagoa de Araruama

Chico Pescador, coordenador da Câmara Técnica de Pesca e Aquicultura, acredita na plena recuperação da Lagoa de Araruama

Porém, a captação em sistema unitário, “tempo seco”, não é ideal, principalmente tendo em vista as mudanças climáticas que já estão acontecendo na região e o aumento do índice pluviométrico, com a ocorrência de grandes chuvas. Entretanto, para haver um sistema de redes separativas é preciso primeiro ter as Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e os troncos coletores. A partir daí, pode-se começar a pensar na construção das redes separativas.

“De que adiantaria iniciar a construção de redes separativas, se não tivéssemos as ETEs e os troncos coletores para levar o esgoto até as ETEs?”, questiona o ambientalista Arnaldo Villa Nova, presidente da ONG Viva Lagoa e da Plenária das ONGs do Consórcio Intermunicipal Lagos São João? “Hoje temos para atender a bacia da Lagoa de Araruama várias ETEs; temos em Araruama uma ETE com Wetland, que trata o esgoto através da vegetação, uma experiência pioneira na América Latina, mas amplamente utilizada nos Estados Unidos; temos ETEs em Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, Búzios e Jardim Esperança, continua Arnaldo.

“Temos troncos coletores em Iguaba, São Pedro da Aldeia e na margem direita do Canal do Itajuru. Está em fase final a obra de captação da margem esquerda do Itajuru, do Peró ao Vinhateiro. Em Araruama, há troncos coletores da Praia do Hospício até a Pontinha”, contabiliza o pioneiro da luta pela preservação da Lagoa de Araruama. “Há necessidade de construir os troncos coletores na altura do valão do Aeroporto de Cabo Frio e no Guarani, já agendados pela Prolagos, e da Pontinha a Iguabinha, que serão construídos por Águas de Juturnaíba. Concluídos esses troncos seguiremos para a fase de construção das redes separativas. Enquanto as redes separativas não ficam prontas, vamos captando as valas e manilhas que despejavam esgoto 365 dias do ano e hoje já não despejam mais”, conclui Arnaldo.

Além do saneamento, o desassoreamento da Lagoa de Araruama é fundamental, para o equilíbrio do ambiente, pois a falta de renovação das águas leva também ao aparecimento de algas e a mortandade de peixes. Neste sentido, outro membro do Comitê da Bacia Lagos São João, Francisco da Rocha, o Chico Pescador, representante da União das Entidades de Pesca e Aquicultura do Estado do Rio de Janeiro (UEPA-RJ), também comemora a dragagem da lagoa.

“Com essa dragagem, acredito que vamos ter em agosto uma lagoa bem melhor do que está hoje”, acredita o representante da pesca artesanal. Junto com Arnaldo, Chico Pescador tem feito o monitoramento da Lagoa de Araruama ao longo dos anos, desde o início da luta pela preservação do maior corpo hídrico da Bacia Lagos São João. E reconhece que agora há esperança de que a lagoa vai recuperar sua feição original, com águas limpas e translúcidas, rica em pescado, como conheceu na sua infância, junto com seu pai e avô, pescadores como ele.

A dragagem em números e volumes

Tulio Vagner

Tulio Vagner

O superintendente do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), da Superintendência Regional Lagos São João (SUPLAJ), da Secretaria Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro, Tulio Vagner, é o responsável pelo acompanhamento da obra de desassoreamento do Canal do Itajuru. Ex-gerente da antiga Serla e com a experiência de quem já vivenciou as demais dragagens ocorridas na Lagoa de Araruama, em momentos mais críticos do que este, quando a lagoa dava sinais de exaustão, Tulio está otimista com esta nova obra que tem tudo para resolver um problema crônico: o da difícil renovação das águas no canal hidráulico entre o mar e a lagoa.

Segundo Tulio, o derrocamento começou em abril. Está prevista uma retirada de 2.500 metros cúbicos de pedras. Já o desassoreamento do canal, que é a retirada da areia, tem uma previsão de atingir 150.000 metros cúbicos. Todo esse material pertence à União e terá o destino que for acordado entre o Estado e o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), do Ministério de Minas e Energia. Na dragagem anterior, a areia retirada serviu para recuperar praias no entorna da própria lagoa. Calculada em torno de 6 milhões de reais, esta nova obra é feita com recursos do Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (FECAM), no Canal do Itajuru tem 3 fases.

A primeira fase foi a retirada das ilhas, remanescentes das torres de transmissão de energia elétrica. A segunda fase é o derrocamento, que está sendo feito em frente ao Cemitério Municipal de Cabo Frio, entre a Ponte Nova, Wilson Mendes, e a Ponte Velha, Feliciano Sodré. A terceira fase é o desassoreamento entre o cemitério e a ponte da RJ 106.

“A grande importância do desassoreamento é a conciliação estratégica da abertura do Canal do Itajuru com a permanente retirada de lançamento de esgoto na lagoa, que vem sendo feita pelas concessionárias de água e esgoto. São duas ações concomitantes importantíssimas; só uma não iria resolver a questão. Essas ações vão facilitar a renovação das águas e garantir a recuperação ambiental da lagoa”, explica Tulio, que estima em 4 meses o tempo de duração da obra.

Máquina  que trabalha no derrocamento entre a Ponte Feliciano Sodré e a Ponte Wilson Mendes, em Cabo Frio. Segundo Túlio Vagner, do INEA, está prevista uma retirada de 2.500 metros cúbicos de pedras

Máquina que trabalha no derrocamento entre a Ponte Feliciano Sodré e a Ponte Wilson Mendes, em Cabo Frio. Segundo Túlio Vagner, do INEA, está prevista uma retirada de 2.500 metros cúbicos de pedras

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